BEM VINDO A ITACA

     Admito que ao ler a Ilíada e Odisseia de Homero quando mais jovem, tive muita dificuldade na compreensão de sua escrita, contudo busquei compreender a história presente na obra, e recentemente me encontrei novamente com essa história ao ouvir falar sobre "Nossa Itaca", o local, ou muitas vezes aquilo ao qual nós pertencemos, onde estamos desempenhando o papel perfeito para nossa satisfação. 

    Partindo desse ponto de vista não pude deixar de relacionar a ideia que surgiu como um vulto em minha mente a pouco tempo atrás de "o que você é?", a maioria das pessoas respondem sua profissão, você realmente é sua profissão? pensar nisso me prendeu boa parte do meu tempo, como eu gostaria de me definir, sou um acadêmico, pode ser, quando estou estudando, e quando não estou sou o que? Posso ser um estagiário mas somente nas poucas 4 horas em que estou no meu turno, e quando não estou no meu turno, sou o que? Então por fim, conclui o mais simples de tudo, meu trabalho não pode definir quem eu sou se ele não é intrínseco da minha vida, pelo menos não enquanto eu puder continuar sendo quem sou estando no meu trabalho ou não estando. 

    Para então encontrar quem eu sou, ou encontrar minha Itaca, o local onde é meu lugar, precisei encaminhar-me para outro âmbito da minha vida, sem minha faculdade ainda sou eu mesmo, sem meu trabalho ainda sou eu mesmo, o que então sua ausência transformar-me-ia em um outro ser? Minha alma, minha mente, isso não resolveria minha questão, o que faz de minha alma ou minha mente ser eu? Minha ligação com outrem? Também não poderia ser, ligações deixam de existir, pessoas vão embora, pelas mais diversas causas e formas, então me restou apenas encontrar o que me torna quem sou na solitude e no lazer, pois o que seria melhor para definir quem eu sou se não aquilo que me trás prazer, independentemente da companhia, se ela existe ou não, aquilo que me é gratificante para além do que se apresenta a volta. 

    E então percebi, é mais difícil do que parece entender quem sou, ser um animal racional torna muito difícil entender-se quem é, o cachorro que encontrei na rua não se questiona se é um cachorro, ele não pensa o quão cachorro é, porém como animais sociais que somos escolhemos nos definir pela nossa função no grupo ou mesmo pelo grupo do qual fazemos parte, eu sou um punk, sou um anarquista, sou um skatista, sou N coisas, mas se sou tantas coisas qual pode me definir, enquanto pensava pude concluir sem a menor chance de dúvidas de que sou um capoeira, me pareceu algo muito simples, como assim, vou definir quem sou pela arte marcial que pratico e ponto final, em 10 anos desde que comecei a praticar estou mais tempo sem frequentar treinos do que realmente frequentando, então realizo, que sim passei mais tempo afastado dos treinos do que treinando e mesmo assim ao ouvir o som de um berimbau meu corpo se mexia sem que eu tentasse, mesmo me conhecendo na época em que não treinava as pessoas que me conheciam ao ver uma roda de capoeira ou a minima menção a capoeira falavam pra mim, pois a capoeira tornou-se parte de quem sou, pode não ser sozinha minha Itaca mas com certeza está lá, na beira do cais ou numa "ladeira igualzinha a do Penhor", se não fosse a capoeira talvez eu nem mesmo teria escolhido meu curso da faculdade, então comecei a me encontrar com outras coisas que me trouxeram até aqui, coisas que mesmo quando eu mudei elas permaneceram.   

    Então cheguei a conclusão mais barata e simplista que posso te dar, um poema que li em uma folha que indicava para fazer algum trabalho de artes durante meu ensino fundamental, sou uma colcha de retalhos, mas apesar disso gostaria de mudar um pouco essa conclusão, sou uma colcha de retalhos mas não só das relações que tive com as mais diversas pessoas que conheci, mas sou das mais diversas coisas que se tornaram parte de quem sou e chegaram a mim diversas vezes mesmo se eu não tivesse conhecido aqueles que me levaram até essas coisas em alguma das vezes. Minha Itaca sem duvidas soa a berimbaus, sem duvida toca hardcore, sem duvida alguma está cheia de graffitis e pixações e com toda a certeza está aberta para receber tudo aquilo que me leve até quem sou, minha ancestralidade, minha filosofia de vida ou qualquer outra coisa que minha arte expresse e meu caminhar carregue. Carrego comigo minha Itaca na memoria, e as vezes no desgaste e nas cicatrizes do corpo, quando vou ao trabalho, a faculdade ou a qualquer outro lugar minha Itaca está guiando e marcando meu caminhar.

Comentários

Postagens mais visitadas